Disseram-nos
que era vital investir na cultura, escreveram no programa de governo
que viam a cultura como “um pilar fundamental da Democracia, da
identidade nacional, da inovação e do desenvolvimento sustentado”,
que iriam “valorizar a criação artística, a vida cultural”
como forma de combater a “devastação” cultural do governo
anterior, viram as suas políticas apoiadas por partidos de esquerda
que proclamam a arte e a cultura como essenciais para a promoção
humana.
São
publicados os resultados do Programa de Apoio Sustentado às Artes,
e, o que vemos? Regiões inteiras do país praticamente esvaziadas de
financiamento às artes, entidades consagradas ou pioneiras
abandonadas à sua sorte, festivais fundamentais ou históricos
despojados, menos entidades a ser financiadas do que nos tempos ditos
de devastação.
Ou
seja, continua a ser votada ao desprezo a missão constitucional do
Estado Português, no que à Cultura diz respeito, faz-se tábua rasa
do próprio programa do Governo e os artistas, apesar de tantas
públicas declarações de amor, continuam a ser vistos como uns
impertinentes, sempre a reivindicar os seus direitos constitucionais,
para grande maçada de certos Diretores Regionais de Cultura, como
recentemente veio à luz, enfado esse que os atuais resultados dos
concursos vieram confirmar de forma quantificada e contundente.
A
gritante insuficiência orçamental, publicamente assumida pelo
Secretário de Estado da Cultura, e para a qual a PLATEIA, e muitas
outras organizações, e até protestos de artistas, chamaram a
atenção, impedem este ou qualquer outro modelo de Apoio às Artes
de cumprir o seu propósito, e o resultado é evidente: extinção de
estruturas, desemprego, precariedade, menor diversidade cultural,
menor acesso à cultura. É esta a política cultural de esquerda que
Governo, PS, BE, PCP e PEV entendem assumir?
À
insuficiência desta política responderemos então com a
mobilização nacional do sector, no dia 6 de abril, afirmando o
desejo de lutar por uma política que seja de verdadeiro acesso à
cultura.
Nesse
âmbito, a PLATEIA não deixa de reivindicar uma série de princípios
que nos parecem estruturais:
Defendemos
a existência de concursos públicos, que garantam a transparência
nos apoios, como os agentes do setor sempre reivindicaram, com
recursos suficientes que permitam manter de forma digna as
estruturas que prestam serviço público.
Insistimos
num paradigma de apoio às artes centrado em financiar
artistas/produtores, tal como está plasmado em Decreto Lei, mas
entendemos que isso não deve ser usado pelo Estado para financiar
as suas próprias estruturas, reconduzindo recursos do OE para
programas intrinsecamente autárquicos.
Exigimos
a disponibilização de mais recursos para despesas de funcionamento
da Direção-Geral das Artes (quadro de recursos humanos + custos
com Comissões de Acompanhamento e Apreciação), condição
essencial, nomeadamente, para um acompanhamento proficiente que
possa ser tomado em consideração em ciclos seguintes, e melhor
garantia da rigorosa avaliação dos projetos artísticos.
Sugerimos,
após encerramento dos procedimentos administrativos em curso, a
auscultação de todos os candidatos, através do Balcão Artes,
para diagnosticar problemas na execução do modelo de apoio às
artes, em especial eliminando desnecessária burocracia; e em
seguida, a análise das mesmas em conjunto com as organizações
representativas para correções a entrar em vigor antes da abertura
(em 2019) do concurso para apoios bienais 2020/2021.
Reconhecemos
parte de responsabilidade, enquanto setor, pela dificuldade de
mobilização nas ocasiões em que efetivamente se decidiram os
elementos conformadores desta política, a saber: discussão do
Decreto Lei (o modelo de Apoio às Artes), discussão das Portarias
Regulamentares (termos de execução do modelo), discussão do OE 18
(afetação de recursos) e discussão do OE 2017 (porque ainda sem
inscrição plurianual da despesa de Apoio às Artes). Porque
guiados apenas pela comoção, continuaremos eternamente a (re)agir
ao que se consuma, incapazes de construir futuro.
Imperioso,
imediatamente em 2018, é repor já os níveis de investimento de
2009, antes da “devastação” no que diz respeito ao Apoio às
Artes, pois tempos de destruição só podem ser colmatados por
esforços decididos de reconstrução e não meros punhados de
promessas e areia, que continuam a deixar as artes em agonia. E acima
de tudo é preciso um pensamento governativo estruturado, liderado
por um Ministro com real peso político e capaz de reclamar para a
Cultura o valor que esta deve ter no desenvolvimento de Portugal e
que está lavrado no próprio programa do Governo.
Porto,
2 de abril de 2018, A Direção da PLATEIA