quarta-feira, 21 de abril de 2010

IETM - Em busca do Plano C

Entre 15 e 18 de Abril, a PLATEIA esteve presente em Berlim, cidade sitiada pelas cinzas de um vulcão na Islândia, numa reunião plenária do IETM – Internacional Network for Contemporary Performing Arts. O IETM, que reúne habitualmente na Primavera e no Outono de cada ano, é uma organização internacional que agrega mais de 400 membros, de todo o mundo, ligados às artes performativas. Os membros são extremamente heterogéneos, entre companhias, empresas de produção, redes privadas e públicas, teatros nacionais e municipais, institutos públicos, membros individuais etc. Em comum todos parecem ter um forte empenho em partilhar práticas, informação, know how e, claro, facilitar eventuais possibilidades de parceria e produção. Será portanto entre esta imensa contaminação – cultural, disciplinar e produtiva – que se sublinha a importantíssima componente política e de cidadania que marca todo o trabalho da organização.
E Berlim, cidade que nas últimas décadas se reinventou sucessivamente, apesar de carregar com especial sacrifício os constrangimentos da História política do seu tempo, não podia ter sido melhor escolha para uma comunidade à procura da saída para a crise que todos os dias é anunciada como omnipresente. Como um fantasma que todos afirmam ver sem que ninguém consiga afastar. E se as situações de crise foram, naturalmente e desde sempre, o berço de uma inesquecível série de heróis e de dramas, a verdade é que no nosso quotidiano deparamos bem mais frequentemente com comportamentos egoístas em que a cada um apenas interessa a sobrevivência do seu projecto pessoal, ignorando tudo e todos os outros, sejam este tudo e estes outros definidos por gerações, geografias ou, e agora no campo das artes, estéticas. E se a isto juntarmos uma maioria de agentes a trabalharem “projecto-a-projecto”, e portanto sem tempo ou disponibilidade para pensarem a um prazo mais longo ou num nível mais alargado, teremos uma comunidade tendencialmente fechada sobre si mesma e tendencialmente preconceituosa relativamente à associação do seu trabalho a outras áreas como a educação, a economia ou a ciência. Uma comunidade que se recusa a fazer política e que quando muita a usa quando lhe dá jeito, mas que verdadeiramente não a faz. E esta insustentável indiferença perante a acção política acaba por se reflectir na abordagem que os artistas, nomeadamente os artistas performativos, fazem dos decisores políticos; Esquecendo constantemente a afirmação do que têm para dar e que a Polis reclama – porque há muito que perderam de vista a Polis – limitam-se a a sublinhar incessantemente a (incontestável) gravidade dos seus problemas. Em Berlim a nota dominante foi então, mais uma vez nos encontros do IETM, a necessidade de os artistas compreenderem as suas responsabilidades políticas, como se, e em particular num mundo em rápida mutação, não se pudesse fazer arte e simultaneamente recusar o envolvimento político. Mas repare-se que as vias para solução deste aparente impasse encontram-se não só na alteração do discurso dos criadores – substituindo os pedidos desesperados de solução pela oferta de um capital não só simbólico e pragmático de que a sociedade não pode prescindir – mas também pela capacidade dos titulares de cargos públicos de desenvolverem projectos globais que facilitem a compreensão das relações de interdependência entre arte, ciência, cultura e economia e que permitam aos artistas e aos demais agentes desenvolverem o seu trabalho de forma mais sustentada. Porque o retorno do investimento feito pelos contribuintes é tanto maior quanto melhor puder ser a planificação da produção do trabalho criativo e produtivo.
Em Portugal este impasse apresenta-se ainda colorido por diversas particularidades. Não bastassem às Artes Perfornativas serem o enteado da Cultura – sem direito a uma rede pública como os filhos legítimos (bibliotecas e museus) - e as tradicionais dificuldades associativas do sector – dificultando a formação de uma massa crítica susceptível de gerar mudanças estruturadas – encontramos também uma Ministra da Cultura que – afirmando-se de um Partido de centro esquerda – propõe os mesmos caminhos que a direita francesa de Nicolas Sarkozy e não hesita mesmo em usar repetidamente o vocabulário da direita portuguesa. Veja-se, quanto aos primeiros, a “luminosa” ideia de – e porque a crise pode ser uma boa desculpa para qualquer disparate – substituir uma política promotora da diversidade e pluralidade por uma política promotora de algo tão vago e insindicável como a “qualidade”. E quanto ao segundo atente-se como somos agora novamente mergulhados num discurso - extraído algures entre os Secretários de Estado da Cultura dos Governos PSD de há vinte anos e o populismo do actual executivo da Câmara Municipal do Porto – que desliza do apoio financeiro à prossecução de um bem público para o estigma da “subsidiodependência”.
A crise podia-se assim definir como um animal estranho que se alimenta de si próprio, pois os modelos que nos conduzem (conduziram) a ela são sistematicamente os mesmos que nos pretendem tirar dela. Ou se não são os mesmos modelos são os mesmos autores de modelos o que acaba por ser exactamente a mesma coisa. Veja-se no sector financeiro, e só mesmo a título de exemplo, como as agências que “supervisionaram” a queda do sistema são as mesmas que zelam pela sua tentativa de recuperação. Ainda assim, e se considerarmos também que há já 18 meses que os economistas dizem que o impacto no sector cultural é diferido mas não falha, as transformações a que assistimos – sociais, financeiras, climáticas – podem originar a perda de patamares civilizacionais de que considerávamos não haver retrocesso (afinal quem é que julgava há 10 anos que uma cidade média europeia, como o Porto, pudesse encerrar o seu teatro municipal?). Em Berlim, e ainda sem saberem como regressar a casa, algumas centenas de pessoas, pareceram acreditar que uma das saídas para a crise pode ser parar de falar nela. Claro que os modelos de relação entre os agentes, e destes com os decisores e com os cidadãos, terão que ser transformados pelo espírito crítico de quem sabe, porque faz arte, que as fórmulas do passado não se podem aplicar ao presente. Mas sem partilha, coragem, generosidade e curiosidade nada será possível. Por isso à saída da última sessão deste encontro, e com o aeroporto encerrado e o caos instalado nas estações de comboios, um cartaz, com um número de telefone , colocado por um dos participantes locais, perguntava “Está retido em Berlim sem ter onde ficar? Ligue-me, eu tenho uma casa grande e posso ajudar.”

por Carlos Costa, representante da PLATEIA no meeting IETM, sitiado em Berlim

1 comentário:

  1. Assino por baixo, Carlos.
    Quem sabe, faz arte. Quer que se saiba.
    Infelizmente, o estigma da subsídio-dependência não está apenas no espírito dos políticos do nível desses secretários de estado do antigamente. Está também, e agora falo apenas de teatro, no espírito dos fazedores de teatro de todos os níveis.
    Precisamos de nos livrar da subsídio-dependência rapidamente sob o risco de qualquer dia não sabermos o que andamos a fazer no teatro.
    Durante muitos anos fui apoiante dos subsídios, mas percebi que são eles próprios a fonte de paralisação do discurso político dos artistas.
    Os artistas não precisam do poder. O poder é que precisa dos artistas.
    Abaixo a subsídio-dependência.
    Pedro Marques

    ResponderEliminar