Porto Infeliz

*a negrito, extractos do artigo/notícia online no site da CMP; entre aspas citações no mesmo site de palavras do Senhor Presidente da Câmara

Eis a notícia mais esperada do ano: O executivo da câmara Municipal atinge a última fase da sua política de esvaziamento cultural e reduz o Porto à condição de cidade menor, cidade que não quer ter voz, cidade que não quer olhar o mundo.

Mas se a notícia era há já muito aguardada importa realçar alguns dos mais brilhantes pontos desta nova/velha política:

«O Rivoli e o Pavilhão Rosa Mota, duas marcas da cidade do Porto, devem ser defendidas e não devem deixar de pertencer ao Estado, neste caso, ao Município»
Parece considerar o Sr. Presidente da Câmara que é obrigação da autarquia a preservação do seu património arquitectónico. Bem! Mas só? É essa a exclusiva razão de tanto uma como outra estrutura serem “marcas da cidade do Porto”? O Sr. Presidente tem portanto como projecto uma Cidade-Museu, uma Cidade-Património Histórico, de preferência sem gente, desértica. Mas às tantas a “gente” não está de acordo. Contrariamente a si, a “gente” gosta do Porto.

«o Estado português tem que emagrecer e por isso há coisas que têm que ser entregues aos privados» Não se terá dado conta o Sr. Presidente: Está no lugar errado. Existe “coisa” pública e “coisa” privada; uma não substitui a outra; podem nalguns casos complementar-se. E é para a gestão e dinamização da “coisa” pública que o Senhor Presidente foi eleito.

...no último mandato foram transferidos para aquela instituição [Rivoli] cerca de 11 milhões de euros. A comparação com outras áreas consideradas prioritárias para o actual executivo é inevitável: apenas metade deste valor foi direccionado para a reabilitação das escolas básicas (5,5 milhões de euros), um pouco mais do que isso foi dedicado à acção social, que inclui o projecto Porto Feliz entre muitos outros (7,3 milhões de euros), o Gabinete do Desporto recebeu cerca de 6,7 milhões de euros e o total das Juntas de Freguesias recebeu cerca de 13 milhões de euros, tanto como o Rivoli e o Teatro do Campo Alegre juntos.
Comparar o que não é comparável, pelo menos comparar utilizando os referentes e indicadores errados.
Seguindo a sua linha de comparação poderia também concluir pelo corte dos custos com escolas, com desporto e outros, para concentrar o mais possível o orçamento da autarquia na ajuda alimentar, isso sim universalmente reconhecido como necessidade básica do ser humano. E assim definitivamente reduzir a população do Porto à indigência, brevemente à espera da ajuda alimentar da ONU, sem exigência, sem ambição. Era de qualidade, de desenvolvimento que gostaríamos de o ouvir falar, e é com esses parâmetros que tem obrigação de agir.
Fica aqui um desafio: já estarão por certo calculados os custos do próprio executivo; por que não entregá-lo, Vª Exª incluído, à gestão de privados? O Senhor Presidente está a sair-nos muito caro. O Senhor Presidente está a desbaratar o investimento público realizado nos últimos anos. Os contribuintes terão, mais tarde, que gastar muito dinheiro para reedificar o que o Senhor Presidente agora está a destruir.

O Pequeno Auditório deverá ser dedicado a produções de carácter experimental, ficando assim salvaguardado apoio às pequenas companhias, e os actores devem ser, preferencialmente, da Área Metropolitana do Porto. A companhia deverá ter ainda uma vertente dedicada ao ensino das artes performativas com alunos da Área Metropolitana do Porto, devendo integrar os melhores na companhia. Quanto aos trabalhadores, deve ser dada preferência aos que já integravam a Culturporto. A companhia terá ainda que facultar anualmente 2500 bilhetes aos alunos do ensino básico do Porto, garantindo assim que, pelo menos uma vez por ano, essas crianças assistam a uma peça de teatro.
Fantástico! Objectivos que nunca sequer tentou cumprir quando geria o Rivoli (este é já o seu 2º mandato, Sr. Presidente!) impõe agora a um privado!
Até terá de ter funções de escola de artes performativas!
Muito bem Sr. Presidente. Ao utilizar a expressão “artes performativas” ficamos até com a impressão de que Vª Exª sabe que esta expressão encerra mais do que o teatro e que um Teatro (edifício) se destina a mais do que teatro (a arte performativa). Mas não sabe que nesta cidade existem muitas escolas, quer superiores quer profissionais, nestas áreas. E outra coisa ainda: tanto nessas escolas que o Sr. desconhece como no mundo dos profissionais das artes cénicas não existem apenas actores. Existem também técnicos de som, técnicos de luz, cenógrafos, cenografistas, figurinistas, aderecistas, coreógrafos, encenadores, produtores, assistentes de produção, designers de luz, maquinistas, designers de som, operadores de luz, de som, de multimédia...
o Rivoli deixa de depender do «subsidio» da Câmara. Assim fica registado que Vª Exª nunca viu a cultura (excluindo o património arquitectónico, claro) como um investimento, como uma obrigação pública, como um financiamento. As aspas estarão lá porque Vª Exª tem consciência que não devia utilizar este termo?

Para já, a autarquia portuense vai adiantando que dificilmente aceitará gerir sozinha o Pavilhão Rosa Mota, inclinando-se preferencialmente para um modelo baseado numa parceria público-privada, em que o edifício se mantenha na posse da Câmara.
Afirmação brilhante. A autarquia “dificilmente aceitará gerir sozinha” um equipamento que é seu. Teremos de a convencer?

Parabéns Senhor Presidente. Acaba de fazer História. O Porto é hoje uma cidade infeliz.


Porto, 20 de Julho de 2006
PLATEIA – Associação de Profissionais das Artes Cénicas