Mensagem de natal para a Ministra da Cultura

Querido Pai Natal,
Isto é: Querida Senhora Ministra da Cultura, Dr.ª Graça Fonseca,
Sim, somos nós outra vez, os artistas, aquele estorvo do costume, que já deve conhecer. No nosso caso, a Plateia, que representa mais de 30 companhias de artes performativas e 100 profissionais em nome individual.
Esperamos que se encontre bem desde a última vez que nos vimos que foi, na verdade, nunca, pois a senhora ministra pouco interesse mostrou em ouvir a Plateia, ou qualquer outro representante dos criadores de artes performativas. Talvez seja daquelas pessoas que acham o mundo da arte funcionaria melhor se não houvesse os artistas, ou que estes se limitassem a fazer o que lhes mandam – ou seja, não fossem artistas.
Sabemos que já tinha decidido pôr uma pedra no nosso sapato por não nos termos portado bem este ano. Uma pedra na forma de orçamentos insuficientes para os apoios às artes, de resultados publicados fora do prazo previsto, do aprofundar de assimetrias nos apoios. Já nos tinha presenteado com a sua indiferença perante os protestos e avisos de artistas, entidades e júris, indiferença aos pedidos de diálogos, já tinha até oferecido algumas afirmações de uma verdade, por assim dizer, muito criativa sobre os concursos e uns números muito postiços aos meios de comunicação social, que é a única forma como comunica connosco.
E ainda assim, nós não nos fomos embora. Nós não nos vamos embora. Estamos aqui para ficar, senhora ministra. E é bem provável que um dia a senhora ministra se vá embora, e nós ainda cá estaremos. Pois, quer goste quer não, nós sabemos que as artes performativas em Portuga não existem sem nós. Sabemos que somos nós que damos a cara, o corpo, o esforço, o suor, o tempo, às vezes até dinheiro, para que existam artes performativas em Portugal. Sabemos que contribuímos decisivamente para melhorar a qualidade de vida dos portugueses, o seu nível educacional, o seu espírito crítico, a sua criatividade, a sua curiosidade, a sua aceitação da diferença – tudo capacidades fundamentais para qualquer sociedade democrática moderna, diríamos nós, senhora Ministra.
Nós, ao contrário das crianças birrentas, que se ignora ou se manda calar, sabemos quem somos, sabemos o que valemos, sabemos o que queremos dizer e o que queremos exigir. Sabemos até o que é que a senhora Ministra fez no Verão passado, em que ignorou regulamentos oficiais porque não dava jeito, ignorou chamadas de atenção de júris oficiais nomeados, porque o calendário eleitoral era pouco propício.
Sabemos que o orçamento de apoio às artes, mesmo tendo aumentado nos últimos anos, continua irrisório, incapaz de potenciar todas as propostas artísticas que queremos dar aos portugueses. Sabemos que percentagens atiradas à sorte na televisão dizem muito pouco e fazem ainda menos.
Sabemos que há companhias a definhar, projetos e património artístico em perigo de se perderem. Sabemos que há populações em Portugal para quem o único acesso à cultura é a televisão – onde a senhora Ministra gosta tanto de ir.
Sabemos que de promessas está o inferno cheio, e até agora ouvimos muitas promessas, poucos atos, pouca disponibilidade para ouvir, para pensar em conjunto, para apresentar prazos, ideias, planos, projetos.
Sabemos que uma Ministra da Cultura de pouco serve se não tiver políticas claras, projetos definidos, medidas e soluções.
E temos a certeza de que é fulcral aumentar a dotação dos apoios às artes para valores que sejam sustentáveis, pois, caso contrário, não há modelos ou boas intenções que valham a ninguém.
Temos a certeza de que a nova Rede de Cineteatros é fulcral para artistas e públicos, mas que de nada vale se não houver medidas concretas para a tornar sustentável
Temos a certeza de que a implementação do Plano Nacional das Artes ajudará a fomentar a criação de gosto pela arte, de públicos informados e críticos e é vital para o futuro do país.
Mas não temos a certeza do futuro. Não temos a certeza do que acontecerá até ao Natal. Não temos a certeza se há algum projeto, alguma ideia para as artes performativas. Não sabemos sequer se a Senhor Ministra algum dia se dignará a receber as organizações que representam as artes performativas em Portugal: a Plateia, o Cena, a Rede, a Performart, o Manifesto em Defesa da Cultura, a Plataforma Cultura em Luta.
Só temos a certeza de que a senhora Ministra, por mais que se queira portar bem este ano, e por mais que o seu partido e o seu primeiro-ministro lhe deixem prendas no sapatinho, elas de nada lhe servirão se continuar a ignorar, enganar, abandonar aqueles a quem era suposto servir: os artistas, os eleitores, os portugueses que esperam do Ministério da Cultura a coragem para lançar os alicerces de novas vias para o olhar e o pensar.
E com isto lhe desejamos bom natal, Senhora Ministra, são os votos, verdadeiros, que a Plateia aqui lhe veio deixar.
10 de dezembro de 2019
Porto, Praça General Humberto Delgado
Lisboa, Largo do Carmo

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